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O FUTURO JÁ NÃO É O QUE ERA?
A propósito da vinda ao nosso país, no próximo dia 22 de Fevereiro, de IG Culture ( New Sector Movements, Co-Op) e Demus ( Numbers, 2 Banks of 4, Co-Op) para uma sessão única de Djing no Trintaeum Bar no Porto, é inevitável que nos debrucemos sobre o movimento musical onde se encontram inseridos. Originado em Londres, em meados de 1999, este movimento não se consubstancia própriamente num estilo musical definido e com uma personalidade precisa ou inquestionável; ao invés, definir-se-à mais facilmente como sendo um estilo não estilo, que congrega em si um conjunto de referências que vão desde as percussões tensas do drum´n´bass até ao house, passando pelas idiossincrasias angulares do funk do final da década de 70 e da década seguinte, pelos sons mais profundos e negros da música soul, pelas contribuições posteriores que esta entronizou na música hip-hop, pela omnipresença das vibrações jazzy que pululam a maioria da música electrónica moderna ou pela adopção dos ritmos africanos ( afro-beat ) como sustentáculo - até melódico - para a sua vertente mais dançável. Os homens que teremos o prazer de encontrar no Trintaeum Bar no próximo dia 22, situam-se no centro deste movimento emergente que, como sempre, não tem resistido a esta tendência obsessiva de catalogarmos tudo aquilo que de novo aparece na música moderna. Inicialmente designado de House/Not House e de West London Sound mas mais recentemente reconhecido como Broken Beat e até mais restritivamente como Future Jazz ou Nu Jazz, os projectos que dele emanam têm, pelo menos, duas características em comum: fogem á inevitável repetitividade a que os estilos existentes nos têm habituado e repelem-nos para um universo de liberdade criativa absoluta por parte de quem toma as suas rédeas: o total despreendimento pelos imperativos de ordem comercial, por um lado e o potencial criativo que a tecnologia actualmente disponível permite, por outro, sustentam as criações mais diversificadas em que este movimento se consubstancia, congregando variadíssimas referências de estilos distintos e que normalmente se posicionam sobre igualmente variadas infra-estruturas rítmicas - umas já conhecidas como a batida house ou as percussões drum´n´bass ou 2 Step e outras bem menos exploradas e que se caracterizam por ritmos imprecisos, divergentes dentro do mesmo tema , pouco sincopados, levemente desestruturados, por vezes em colisão e que quase nunca assentam.
No entanto, não se fique desde já com a ideia de que tudo o que pulula nesta zona tem necessáriamente algo de visívelmente inovador, algo que vá para além dos cuidados postos na produção musical e da utilização constante de meios musicais electrónicos; de facto, uma boa parte das propostas que daqui emergem são facilmente catalogadas com House Music, Jazz, Soul ou Drum´n´Bass, entre outros e não se posicionarão como pertencentes a algo de realmente novo. Mas a grande questão é que o são de facto. Para se entender musicalmente este movimento é imprescindível estudar-se o seu surgimento. No final dos anos 80, o já referido Dego Mcfarlane e um homem chamado IG Culture encontravam-se a ouvir e tocar reggae em grandes festas enquanto mantinham os olhos bem abertos na cena hip-hop londrina. Iniciados os anos 90, IG funda as Dodge City Productions ( um misto de produções de moda e de djing/producing com inspiração hip-hop) e lança a sua própria editora também de hip-hop: One Drop Inter Outer. Na mesma altura, Dego ajuda a fundar a Reinforced Records, uma das editoras pioneiras a mostrar ao mundo a então neófita cena drum´n´bass. À medida que os 90 avançavam, esta dupla repartia os seus esforços por múltiplos projectos: IG concentrava-se no lançamento das compilações Smoke No Bonez e em projectos a solo enquanto Dego fazia música hip-hop sob o nome de Tek 9, drum´n´bass melódico nos 4 Hero e techno com o nome de Nu Era. No final da década passada, tanto um como outro decidiram mudar as agulhas dos seus comboios artísticos, iniciando novas editoras e abraçando novos formatos de dança de índole menos restritiva. Dego passou a ser apenas colaborador na Reinforced Records e fundou a já nossa conhecida 2000 Black, como forma de lançar as propostas inovadoras que escutava à sua volta, designadamente aquelas cujo toque futurista e os elementos de fusão entre estilos mais o cativavam: por exemplo, Likwid Biskit, Quango, Murky Waters e New Sector Movements (nestes três últimos pontifica o já incontornável IG Culture ). Simultâneamente, juntou as suas forças às de Mike Slocombe e Spencer Weekes - ambos da People Records - e fundaram a editora Main Squeeze.
Foi sensivelmente nesta altura que Dego e IG se conheceram e começaram a colaborar, unindo as suas sensibilidades artísticas e experiências passadas, através do lançamento de um novo colectivo designado Da One Way . Encontram-se agora no pelotão da frente deste novo movimento - necessáriamente de cariz underground - e que congrega outros músicos e produtores de qualidades já reconhecidas, tais como Phil Asher ( projecto Phoojun, responsável pelas excelentes compilações Jazz in the House e pai das Restless Soul Productions), Alex Attias ( homem que está por trás dos projectos Beatless, Mustang e Plutonia, sendo este último uma parceria precisamente com Dego ), Modaji e , não menos importante, o colectivo Bugs in the Attic . Mas não se pense que são apenas IG Culture e Dego McFarlane os homens por trás do espírito que alicerça estas novas sonoridades, nem tão pouco se pode afirmar que sejam os únicos responsáveis pela inspiração que as suporta. Neste contexto, debruçemo-nos sobre o caso específico de um miúdo de 24 anos, de seu nome Paul Dolby ( sendo Seiji , Opaque e Homecookin alguns dos projectos artísticos que personifica ), também pertencente ao referido colectivo Bugs in the Attic - iniciado por Orin Walters e que igualmente incorpora o seu projecto Afronaught - os já mais conhecidos Neon Phusion , Mark de Clive Lowe, Kaidi Tatham, BB Boogie, Domu, Volcov, Nubian Mindz, entre outros. Paul começou por produzir tudo e mais alguma coisa, desde house até drum´n´bass e não deixa de ser interessante ouvirmos o que tem para dizer no contexto do seu novo trabalho: todo este movimento de West London centra-se na ideia de fusão; nós não estamos apegados a nenhuma fórmula mas o que se torna preocupante relativamente ao movimento Broken Beat é as pessoas pensarem ´OK, isto é um estilo e é assim que ele soa ´. Mas não é verdade. Todos os produtores que estão envolvidos nesta coisa não estão a fazer todos música do mesmo estilo. Mesmo dentro dos músicos / produtores que trabalham em West London, a criação é muito diversificada. Eu estou a fazer música muito electrónica, enquanto o Domu (produtor de origem italiana) se continua a centrar na vertente mais técnica do drum´n´bass. E depois temos o Phil Asher e as suas Restless Soul Productions na área da ´soulful music ´ . E Paul continua, já noutra ocasião, por justificar a génese por detrás deste agrupamento de pessoas que se sentiam entediadas pelas fórmulas comerciais que derivavam dos estilos de dança existentes: sempre que tento resumir a essência daquilo que faço a uma só palavra é a palavra ´ ciência ´ de que me lembro. O meu estilo de programação vai seguramente beber ao drum´n´bass, mas estou a tentar fazer alguma coisa verdadeiramente científica porque, no final do dia, uma batida house torna-se um aborrecimento e torna-se entediante fazer música de um estilo específico em que tens de introduzir sempre a mesma batida, mais ou menos rápida, mais ou menos quebrada. È por isso que nós começamos a fazer música diferente, porque estavamos efectivamente aborrecidos . E o tédio é a consequência inevitável de uma cena de dança em que a indústria musical que a viabiliza é obcecada com a catalogação e a uniformidade dos estilos. Todos sabemos que a previsibilidade é uma das características fundamentais de uma corrente de dança que queira ter sucesso comercial. Ao contrário do 2 Step, o movimento Broken Beat opera debaixo de orientações rítmicas imprecisas e, portanto, muito menos atractivas para os que tentam fazer muito dinheiro vendendo música de pista. Leia-se como Dego enquadra esta questão no espírito do movimento a que pertence: as pessoas em Londres estão mais preparadas para sacrificar o seu nível económico pela música que fazem. Desde que as suas contas estejam pagas, estão dispostas a fazer a música que querem fazer; noutros países, as pessoas na indústria são mais economicistas e orientadas para o negócio. Identificam um objectivo e fazem tudo para o atingir. Nós não; o que queremos é criar novos sons e estar sempre a fazê-lo melhor. Todos aqueles que se situam nesta órbita musical comungam de um mesmo objectivo claro e que é apenas o de combinar diferentes estilos e / ou diferentes estruturas rítmicas, fundido-os num mesmo tema. Mas tal não significa que muitas vezes o resultado final não seja apenas uma boa canção soul ou funky alicerçada em compassos quaternários, com vozes femininas a completar o ramalhete. Nem significa, portanto, que estejamos a falar de terrenos musicais onde o conceito de canção melódica se encontre totalmente arredado. Antes pelo contrário, a maior parte da música não abdica de se situar num contexto claramente melódico e penetrável, remetendo-nos para um qualquer universo musical conhecido - Jazz, Soul, Funky, R & B, Reggae, Disco, Hip-Hop. São numerosas as contribuições de senhoras da música negra, tais como Loretta Weywood, Alma Horton, Ursula Rucker, Valerie Ettiene, entre outras, bem assim como de gigantes do Jazz e da música negra em geral, como Roy Ayers, Don Blackman e o incrível Fela Kutti. Por aqui se percebe as razões de falarmos de um estilo não-estilo. Por aqui se percebe que quem gosta mesmo de música de dança encontrará sempre neste movimento referências que lhe são próximas, bem como sonoridades que lhe farão bater o pé e abanar as ancas. Por aqui se percebe que o melhor remédio para a uniformidade que conduz ao tédio é a diversidade que nos transporta ao futuro da música recorrendo ao futurismo patenteado nas criações musicais passadas. Por aqui se percebe que o vanguardismo musical sempre foi gerado pela força invisível mas perene que deriva das repetidas audições do que já foi feito. Por aqui se percebe que é este baralhar-e-dar-de-novo que nos faz acreditar que a vanguarda musical será sempre muito mais alicerçada na genialidade de quem cozinha do que própriamente nos ingredientes utilizados.
Sem possuírem uma fórmula genérica acessível, os músicos deste movimento correm o risco de, sem o querer de todo, afrontarem os críticos e os puristas musicais. Este movimento pode constituir-se apenas numa pequena rede de almas que pensam e sentem a música da mesma maneira, mas a sua mensagem de emancipação relativamente às fórmulas e categorias-instituídas ou não - começa a alastrar um pouco pelas pistas de dança do velho continente . Resta-nos apenas oferecer a nossa contribuição, ouvindo e dançando a música que criam.
Existe já um conjunto muito apreciável de referências e criações incontornáveis originadas no movimento Broken Beat ( a propósito e antes que seja tarde demais, não confundir com breakbeat ). Estas são algumas que considero obrigatórias:
Albums
Neon Phusion - The future ain´t the same as it used to be - Laws of Motion
Urban Soul Collective - Please yo´self - Si Project
Nathan Haines - Sound Travels - Chilifunk
Homecookin - Do what you wanna - Sole Music
Afronaught - Shapin´ fluid - Apollo
Boogie Soliterre - Simple things - Flipside/Da Groove
Modaji - Modaji - Laws of Motion
Nubian Mindz - New World Chaos - Archive/Goya
New Sector Movements - Download This - Virgin
4 Hero - Creatting Patterns - Talkin Loud
Domu - Up and Down - Archive
Numbers -Safety in Numbers - Main Squeeze
2) Alguns Maxis
Neon Phusion feat. New Sector Movements - The future ain´t the same
- Laws of Motion
Naima - Hipnotica - Laws of Motion
Plutonia - Forever - Visions
Plutonia - What you Know - Visions
Anthony Nicholson presents Miquifaye - Visions
Valerie Ettiene - Saving Grace - Talkin Loud
Seiji - Into the Now - Laws of Motion
Seiji - Second Nature (remixes) -Laws of Motion
Beatless - Life Mirrors - Ubiquity
Vikter Duplaix - Manhood - Groove Attack
Compilações essenciais
The good good - 2000 Black
Jazz in the House (vols. 8 e 9) - Slip ´n´Slide
Phuturesole - A Collection of Left-of-Centre Contemporary Dance Grooves - SoleMusic
Phuturistic Dancin´Mission One - Bitasweet/Goya
People make the world go round (vols. 1, 2 e 3) - People
Co - Operation - Co-op
Laws of Motion - Laws of Motion
Le Nouveau du Jazz - Irma |